Há uma ironia elegante no nome deste coquetel: ele se chama “à moda antiga” porque, quando ganhou esse apelido, já era o jeito antigo de se beber. Tudo o que veio depois: o Negroni, o Manhattan, o Martini, são, de certa forma, uma variação sobre a fórmula que o Old Fashioned fixou primeiro. Compreendê-lo é compreender a gramática da coquetelaria.
“Não há como esconder um bourbon ou um gelo de baixa qualidade atrás de apenas quatro ingredientes.”
Antes do nome, a fórmula
Em 1806, um jornal de Nova York chamado The Balance and Columbian Repository publicou a primeira definição registrada da palavra “cocktail”: uma mistura de destilado, açúcar, água e amargos (bitters). Sem saber, aquele redator estava descrevendo exatamente os quatro elementos que, décadas depois, comporiam o Old Fashioned. Antes de virar um estilo entre tantos, ele era o próprio conceito de coquetel.

O Nascimento em Louisville – Kentucky
A versão mais documentada da origem do drink situa seu nascimento no Pendennis Club, um clube privado fundado em 1881 em Louisville, Kentucky, que segue em atividade até hoje. Segundo o relato mais aceito pelos historiadores da coquetelaria, entre 1889 e 1895 um bartender do clube, Martin Cuneo, preparou a bebida em homenagem a um membro ilustre: o coronel James E. Pepper, destilador de bourbon de prestígio na região.
Pepper levou a receita consigo quando passou a frequentar o bar do Waldorf Astoria, em Nova York, e foi ali, em meio a nomes como John D. Rockefeller e Theodore Roosevelt, que o drink ganhou o alcance que o tornaria permanente.
Vale uma ressalva de historiador: referências ao termo “old fashioned cocktail” já apareciam impressas antes mesmo da fundação do Pendennis Club, o que sugere que o clube não inventou a bebida, mas foi o primeiro a batizá-la formalmente com esse nome, e a fixar por escrito a receita que conhecemos hoje.
Como o nome “à moda antiga” quase virou uma ironia
Ao longo do século XX, bartenders começaram a adicionar fruta macerada — laranja, cereja, por vezes até abacaxi à receita original, que era simplesmente destilado, açúcar, amargos e uma casca de cítrico. O resultado, para os puristas, desviava do espírito original do drink: em nome de preservar “o jeito antigo”, muitos bares passaram a servir uma versão mais próxima de uma sangria curta do que do coquetel seco e direto que Cuneo serviu a Pepper.
Como boa parte da coquetelaria clássica, o Old Fashioned atravessou décadas de esquecimento, vítima, em parte, do excesso de fruta macerada, em parte da ascensão de drinks mais doces e coloridos entre as décadas de 1960 e 1990. Seu retorno ao centro da cena aconteceu já no século XXI, coincidindo com o movimento mundial de resgate da coquetelaria pré-Lei Seca, o mesmo movimento que devolveu força a clássicos como o próprio Negroni.
A receita segundo a IBA
A International Bartenders Association reconhece o Old Fashioned como um dos coquetéis oficiais da categoria “Unforgettables” — os clássicos que resistiram ao tempo. A receita oficial:
- 45 ml de Bourbon Whiskey de alta qualidade
- 2 dashes de Angostura bitter
- 1 cubo de açúcar (ou 1 colher de chá de açúcar)
- Um splash de água com gás
- Casca de laranja e, opcionalmente, uma cereja para guarnição
Preparo: dissolve-se o açúcar com os amargos e um pouco de água diretamente no copo baixo, acrescenta-se gelo em cubo grande, o destilado, e mexe-se lentamente. A casca de laranja é torcida sobre o copo para liberar os óleos aromáticos antes de ser adicionada.
O Old Fashioned não pede reinvenção, pede execução impecável. É, talvez, o teste mais honesto do que um bar sabe fazer: não há como esconder um bourbon ou um gelo de baixa qualidade atrás de apenas quatro ingredientes!

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